OutField Consulting © 2017.

Orgulhosamente criado com nosso cliente Wix.com.

Recent Posts
Featured Posts

#Rio2016: O legado do pão e circo!

May 23, 2016

Estamos a oitenta dias das Olimpíadas e com isso fecharemos o ciclo de megaeventos esportivos (Pan 2007-Copa 2014-Rio 2016) que deveria ter revolucionado o esporte brasileiro, potencializando seu impacto em nosso sistema educacional e gerando inúmeros benefícios estruturais ao país.

 

 

Entretanto, antes mesmo dos jogos é possível enxergar o tamanho do fracasso. Na prática, ao invés de reinventar nossa educação com o apoio dos esportes e reformatar nosso projeto olímpico de alto rendimento, torramos um volume estapafúrdio de dinheiro público apenas para engordar os bolsos de políticos e empreiteiros e consolidar o legado do pão e circo.

 

 

 

 

Da Copa, por exemplo, exceto o caricato 7x1 e arenas moribundas que hoje respiram por aparelhos, o que permaneceu foram memórias embriagadas que mais uma vez validaram o velho e insuportável clichê: “o brasileiro é um povo bem humorado e que por aqui tudo termina em carnaval e caipirinha”.

 Alguma dúvida de que a Olimpíada caminha para o mesmo desfecho?.

 

O triste estado do esporte brasileiro

 

Em nosso país o desporto é um direito constitucional, garantido pelo artigo 217 da Carta Magna: “É dever do Estado fomentar práticas desportivas formais e não-formais, como direito de cada um, observados: a destinação de recursos públicos para a promoção prioritária do desporto educacional e, em casos específicos, para a do desporto de alto rendimento”.

 

Dentre outras, foi com base nessa justificativa que o então presidente Lula buscou com unhas e dentes as oportunidades de sediar o Pan em 2007, a Copa em 2014 e as Olimpíadas que estão por vir. Obviamente, o presunçoso Carlos Arthur Nuzman (Presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, que já analisei em outro recente artigo) e toda a corja da CBF adoraram a chance de estar nos holofotes e perpetuarem suas gestões ineficientes e corruptas. Além deles, como a Lava-Jato e outras investigações constantemente revelam, diversas empreiteiras e políticos fizeram a farra e lucraram como nunca.

 

(Em 10 anos Maracanã passou por três grandes reformas - cada evento tinha suas exigências específicas)

 

 

Uma conta de padaria mostra o tamanho do negócio e como foi fácil ganhar dinheiro com esses eventos na última década – viva à contabilidade criativa:

  • Pan-2007 - orçamento previsto: R$900MM Vs realizado: R$3,3bi (+230%).

  • Copa-2014 - orçamento previsto: R$22bi Vs realizado: R$30bi (+36%).

  • Olimpíadas 2016 - orçamento previsto: R$28bi Vs realizado (até agora): R$38bi (+36%).

 

Somando os três eventos e trazendo o volume a valor presente temos algo próximo a R$90 bilhões – valor esse que seria suficiente para cumprir 1/4 do orçamento para Educação em 2016 e que representa 3X o valor alocado para o Programa Bolsa Família neste ano. Enfim, em época de crise na qual o governo tem contado moedas pra pagar as contas, parece que essa grana está fazendo falta.

 

Em meio a tantos problemas seria natural não investirmos esforços exagerados nesses eventos. Mas ok, uma vez que nos comprometemos em sediá-los perante a comunidade internacional, o ideal seria fazer como fazemos em casa quando temos qualquer problema financeiro, o clássico mais com menos – a famosa eficiência. E qual a forma mais inteligente de otimizar investimentos?

 

Tudo começa com a seleção de profissionais capacitados para tocar os projetos, o que nesse caso significaria nomear especialistas na indústria esportiva para ocupar cargos estratégicos no Ministério do Esporte (e nos Comitês Organizadores) – e claro que foi exatamente isso que NÃO aconteceu.

 

Quem (não) cuida do esporte brasileiro

 

Desde que a pasta foi criada por FHC em 1995, desmembrando-a do Ministério da Educação, o único “técnico” (ou próximo disso) atuando na função foi Pelé. De lá pra cá, como a maioria dos Ministérios “menos importantes” (independente do governo), o cargo se tornou moeda de troca política e os últimos 4 ministros do esporte entendem tanto do tema quanto um recém-nascido.

 

Entre 2006 e 2011 tivemos o excelentíssimo Orlando Silva (advogado e ex-líder estudantil) que saiu do cargo sob acusações de desvio de verbas de programas esportivos voltados às comunidades carentes. Depois dele veio Aldo Rebelo que permaneceu no cargo entre 2011 e 2015 – um mágico generalista, pois depois que deixou o Esporte, passou pelos Ministérios da Ciência e Tecnologia e até duas semanas atrás era o chefe da Defesa.

 

Falando em generalista, na linha de sucessão veio George Hilton, radialista e teólogo que no dia de sua posse afirmou não entender muito sobre o tema – ganhou pontos pela sinceridade.

(Hilton em sua posse: “Posso não entender de esporte, mas entendo de gente”)

 

 

Em meio ao caos dos últimos meses, numa manobra política, ele abandonou o cargo que caiu no colo de Ricardo Leyser (então Secretário Executivo do Ministério), aparentemente o mais capacitado para exercer a função até então – possui boa formação em planejamento e foi carreirista no Ministério. Porém, sua gestão durou apenas três meses, sendo abreviada pelo esfacelamento ministerial na transição Rousseff/Temer.

 

Assim, nos jogos olímpicos o Ministério estará sob a liderança de Leonardo Picciani, mais um político nefasto que tem dificuldades em entender até mesmo sua função no dia-dia de Brasília. Até assumir o posto há duas semanas, sua única relação com o Rio 2016 eram suspeitas de enriquecimento ilícito por meio de conflitos de interesses referentes a algumas das obras na capital carioca.

 

(Picciani era contra o impeachment e agora tem cargo no governo interino. Coerência é com ele mesmo!)

 

Queremos as Olimpíadas?

 

Antes dos dramáticos desenrolares da crise atual e influenciados pelo praticamente INEXISTENTE legado da Copa (apenas 1 em cada 4 obras prometidas em 2009 foram entregues até hoje), os Jogos Olímpicos do Rio já eram os menos apoiados da história, com 57% de aprovação da população. Quando comparados àqueles realizados no passado e aos próximos a serem sediados na Ásia, notamos a diferença:

  • Londres (GRB) 2012: 70% de aprovação;

  • Sochi (RUS) 2014: 62% de aprovação;

  • Pyeongchang (COR) 2018: 92% de aprovação;

  • Tokio (JAP) 2020: 90% de aprovação;

  • Pequim (CHI) 2022: 93% de aprovação.

(45% dos brasileiros não enxergam benefícios em sediar os jogos, enquanto o patamar médio global é de 27%)

 

Como cães acostumados a apanhar, com alguma justiça os brasileiros não enxergam benefícios em sediar os Jogos Olímpicos, pois infelizmente nos acostumamos com o derrame desregrado de dinheiro público nesses eventos, sem a contrapartida do LEGADO que fica lindo em vídeos comerciais.

(Em SP o monotrilho que supostamente deveria estar pronto pra Copa está com as obras praticamente abandonadas em SP. Em BH um viaduto construído para a Copa desabou durante o evento e matou uma mulher. No RJ semana passada foi anunciado que as obras do metrô ficarão prontas apenas após os jogos.)

 

Dê-nos o pão que amaremos o circo!

 

Contudo, a lembrança ainda recente nos recorda que também não apoiávamos a Copa de 2014 e, mesmo com todos os problemas de infraestrutura e logística, como bem sabemos, o baile comeu solto e a farra foi garantida a todos que dela participaram direta ou indiretamente.

 

Está certo que o evento não trouxe o prometido “lucro” ao país (lembremos da querida FIFA que literalmente saqueou a República das Bananas, colocando USD2,5bi em seus cofres, enquanto nós arcamos com todas as despesas), mas num passe de mágica, exceção feita às vaias à Presidente Dilma na partida de abertura e em outros jogos do torneio, nos embriagamos de alegria e por alguns momentos nos esquecemos dos problemas que assolavam nosso país.

 

O mesmo deve acontecer durante as Olimpíadas - festejaremos como nunca enquanto a saúde pública carioca enfrenta o caos, ciclovias (e viadutos) desabam e o tráfico de drogas joga solto. Mas fiquemos tranquilos...após os jogos a criançada poderá se esbaldar em um velódromo novinho em folha... velódromo?

 

 

A única diferença prática é que ao invés da combalida presidente Dilma, teremos o poderoso-chefão Michel Temer recebendo as delegações e fazendo as honras. Parece que assim como a Copa, os jogos serão legais, mas não se enganem, LEGADO mesmo só as dívidas, o buraco maior em que entramos a cada dia e a crise política que ainda deve se prolongar por um bom tempo.

 

Portanto...

 

Enquanto o esporte não for tratado como elemento fundamental para o desenvolvimento da educação e seguir como moeda política, como plataforma para enriquecer dirigentes nefastos e como ferramenta de manobra das massas, é isso que temos.

 

Sugestão: em tempos de polêmica sobre formação de Ministérios por que não integrar definitivamente o Esporte ao Ministério da Educação e assim evitar que o cargo seja objeto de malabarismos políticos?

 

Assim, com status de Secretaria e trabalhando em prol da educação, usando o esporte de alto rendimento como instrumento deste processo, quem sabe seja possível garantir maior autonomia ao esporte nacional, nomeando profissionais técnicos e capacitados como, por exemplo, a ex-jogadora de vôlei Ana Moser que faz ótimo trabalho na Atletas pelo Brasil.

 

E aí voltamos ao debate de que para iniciar qualquer mudança, ela precisa vir da base...a população precisa se envolver, atletas e federações precisam peitar o COB e clubes/jogadores devem enfrentar a CBF...além dos demais profissionais e empresas envolvidas com o tema e que investem no esporte que devem atuar conjuntamente para melhorar esse cenário. É difícil, sim, mas apenas desta forma existe um horizonte para o esporte brazuca.

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload

Follow Us
Search By Tags