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NFL e Premier League: alerta vermelho nas maiores ligas do mundo?

October 31, 2016

 

 

As duas mais bem sucedidas ligas esportivas no mundo - a NFL e a Premier League - que anualmente fazem bilhões de dólares a partir da venda de seus produtos para grandes patrocinadores e emissoras com vastas audiências globalmente, hoje se encontram em meio a uma situação inesperada para seus padrões: ainda na fase inicial de suas temporadas, ambas enfrentam uma significativa queda em suas audiências - algo que pode abalar seus modelos de negócios.Em suas sete primeiras semanas, a liga de futebol americano registrou queda geral de 17% no território americano, enquanto os ingleses, prestes a completar dois meses de temporada em andamento, enxergam seus indicadores encolherem 20%.

 

O que explica o declínio?

 

Antes aparentemente imunes ao fenômeno global de migração da audiência da TV (Aberta e Paga) para serviços digitais (Streaming Ao Vivo e On Demand), em inglês denominado "cord-cutting" ou na tradução "cortando o cabo", as ligas começam a sentir o impacto das mudanças nos hábitos de consumo de conteúdo que deverão, no médio prazo, remodelar a dinâmica da indústria. 

(Nos EUA milhões de usuários estão abandonando a TV por assinatura para utilizar serviços de streaming - a ESPN americana, por exemplo, perdeu 10M de assinantes nos últimos 5 anos).

 

A queda no número de televisores ligados ocorre em um momento chave no qual as emissoras americanas e inglesas subiram (e muito!) suas apostas no produto “conteúdo ao vivo”, na esperança de que ele seja o último escudo na luta contra a nova ordem do consumo de mídia.

 

Talvez ainda seja cedo para pintar o cenário apocalíptico e exatamente por isso os dois mastodontes se anteciparam aos questionamentos e apresentaram um pacote de justificativas para essa situação que vai desde a peculiar e espetacularizada corrida eleitoral nos EUA até um suposto senso de "empanturração" esportiva que poderia ter sido causado pelas Olimpíadas do Rio na população inglesa.

 

No caso dos americanos, além da liga enfrentar problemas extracampo que vão desde incidentes com os atletas em suas vidas pessoais até as concussões (traumas gerados por fortes choques no crânio dos jogadores) e a queda na popularidade do esporte perante as gerações mais jovens, historicamente existe sim uma queda na audiência esportiva em anos eleitorais, porém ela se resumia a 2% dos espectadores deixando de assistir as partidas de futebol americano para acompanhar o noticiário sobre as eleições - número muito inferior à queda atual. Em todo o caso, em duas semanas, com o fim da corrida eleitoral, já poderemos validar o argumento.

 

Já no caso dos ingleses não há nada que justifique o fato de que o Rio 2016 tenha impactado negativamente uma temporada que, ao menos em patamares estelares, dentro e fora de campo (com as chegadas, por exemplo, de Pep Guardiola, José Mourinho, Ibrahimovic e Pogba - para citar apenas alguns) tinha (e ainda tem) tudo para ser uma das melhores da sua história.

 

O real impacto de tendências comportamentais

 

1. TV por assinatura pra quê?

 

Na última semana especialistas em pesquisas e o jornal britânico The Guardian exploraram o tema e apontaram como justificativa a consolidação de tendências como a chegada dos “cord-nevers” ao mercado de consumo, ou seja, jovens com menos de 25 anos que ao invés de aderirem aos serviços de TV por assinatura, procuram diretamente por conteúdo gratuito nas redes sociais. Considerando a quantidade de conteúdo de qualidade disponível atualmente em plataformas como Facebook, Instagram, YouTube e Snapchat, é possível compreender o racional de jovens que preferem consumir "gratuitamente" seus assuntos de interesse nas timelines das redes sociais.

 

Indo mais a fundo nos motivos responsáveis pela queda de audiência, o Guardian publicou na última quarta-feira uma pesquisa (disponível no link) realizada com torcedores ingleses que revelou ótimos insights sobre o tema, com destaque para a migração da audiência para o ambiente digital, especialmente porque o consumidor não percebe mais valor nos pacotes de TV por assinatura. Em outras palavras, as operadoras cobram muito caro pelo produto que vendem.

 

Entre os argumentos mais interessantes, aparecem menções como:

 

(1) comprar um pacote de ingressos para toda a temporada é mais barato do que comprar o pacote de jogos pela TV;

 

(2) o torcedor não se sente mais na obrigação de assistir aos jogos ao vivo porque tem acesso fácil e rápido às informações sobre o resultado e melhores momentos; ou

 

(3) é necessário assistir a apenas um dos jogos (e não a todos eles) para ter a sensação de acompanhar a liga.

 

2. A saturação de conteúdo esportivo

 

Houve um tempo (recente) em que, com base na ideia de alavancar suas receitas e atender a interesses das emissoras, as duas ligas adotaram modelos semelhantes e diluíram seus jogos ao longo da semana. A NFL, por exemplo, sempre teve como bandeira o domingo - o dia da semana em que a familia americana religiosamente se reúne para celebrar seu esporte favorito -, porém na ultima década a liga pulverizou sua estratégia de produto, comercializando outras bandeiras com enorme sucesso. Primeiro foi criada, trabalhada e celebrada a marca “Sunday Night Football” - hoje o maior programa da TV americana que nos últimos anos é repetidamente responsável pelas maiores audiências do pais.

 

 

(Ainda que questionada, a NFL foi responsável por 19 das 20 maiores audiências anuais da TV americana em 2014 e 2015).

 

 

 

Após o sucesso dessa iniciativa a liga migrou o horário nobre do futebol também para as segundas-feiras - o também celebrado “Monday Night Football” - e mais recentemente deslocou jogos também para as quintas-feiras. Assim, o esporte preferido dos americanos deixou de ocupar apenas um dia da semana para se fixar como uma programação constante e onipresente se considerarmos os milhares de noticiários esportivos que se misturam a tudo isso.

 

No Reino Unido a mesma tática foi adotada quando as rodadas, ainda destacadamente disputadas aos sábados, passaram a ter jogos na sexta e na segunda. Desta forma, hoje os ingleses podem assistir aos jogos da Premier League ao longo de todo o final de semana, o que duas vezes ao mês se mistura com partidas da UEFA Champions League as terças e quartas - parece demais pra você? Talvez para os mais fanáticos (como este que vos escreve) não seja, mas para o torcedor comum, aparentemente pode ser um exagero.

 

Preocupações exageradas?

 

Olhando pela perspectiva das ligas, também é possível compreender a razão pela qual elas mantém a confiança em seus produtos e acreditam na manutenção da sua hegemonia (curiosamente a mesma que as está fazendo enfrentar questionamentos): AUDIÊNCIA.

 

Sim, apesar do impacto recente nos números, as duas ligas continuam liderando os quadros de espectadores em seus respectivos países. Os headliners da NFL, por exemplo, seguem com audiências incomparáveis aos demais esportes e ao restante da extremamente fragmentada e diversa programação da TV americana:

  • Sunday Daily Football (partidas transmitidas ao longo do domingo): média de 21M de espectadores.

  • Sunday Night Football: média de 18M de espectadores.

  • Monday Night Football: média de 11M de espectadores.

  • Thursday Night Football: média de 13M de espectadores, somados a 2,5M de fãs oriundos da transmissão global via Twitter.

 

O que vem por aí?

 

Caso a tendência de queda se confirme e os números não melhorem, é natural que as ligas gradativamente sofram uma pressão maior das emissoras que investiram assombrosas quantidades de dinheiro em seus produtos. Nesse processo quem sai ganhando é o consumidor final, pois um dos possíveis reflexos é a redução dos valores cobrados por pacotes de TV por assinatura ou por jogos em pay-per-view e o desenvolvimento de novas ofertas como, por exemplo, pacotes customizados e direcionados apenas ao time de coração do torcedor, além de assinaturas mais baratas para acompanhar os jogos apenas via streaming (ambas opções ja utilizadas, por exemplo, pela NBA nos EUA).

 

Portanto, na era da plenitude digital, uma indústria que por anos praticou (e ainda pratica) preços abusivos, inflando valores com ofertas restritas de conteúdo, precisa se adaptar rapidamente à nova realidade e encontrar formas inovadoras de não apenas entregar o produto ao consumidor final, mas também fazê-lo perceber seu valor e estar satisfeito em pagar por isso - caso o contrário, é possível que o sentimento externalizado pelos ingleses cada vez mais se intensifique globalmente.

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